#Agricultura
Precursores do Café Robusta Amazônico levam formação para terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima
“Todo mundo aqui, antes de comer e saciar a sua fome vai alimentar o filho. Então, por que é importante manter o meu café enfolhado? A planta vai fazer a boa e velha fotossíntese, só que, antes da lavoura crescer, ela vai alimentar primeiro o filho - os frutos e sementes. É comum o produtor ter apego e pena de podar, mas se não houver a poda do jeito certo, a planta enfraquece. As folhas amarelas são sinais dela se exaurindo ao máximo para atender o ‘filho’.”
Foi nesta toada, das questões básicas às mais complexas, com um sol de mais de 30 graus do clima equatorial de Roraima, cercada por plantações de café, que a engenheira agrônoma Poliana Perrut de Lima, consultora do Senar de Rondônia, explicava sobre o manejo das plantas para técnicos agrícolas e agricultores na última semana, na comunidade do Kauwê, na terra indígena Raposa Serra do Sol.
Mais de 100 pessoas, entre pesquisadores, produtores do café, indígenas, técnicos do Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural de Roraima (Iater-RR) e outras instituições de apoio, reuniram-se para o Dia de campo sobre o cultivo do café na comunidade indígena Kauwê, no município de Pacaraima, extremo norte do país. O objetivo do evento foi disseminar, incentivar e promover o cultivo de qualidade do café robusta amazônico, especialmente entre os indígenas.
Co-desenvolvido pela Embrapa, a partir de experimentos de agricultores e apoiadores locais em Rondônia, o café robusta amazônico é hoje o único café canéfora [de baixa altitude] a conquistar premiações de qualidade reconhecidas internacionalmente, pela produção indígena da etnia Suruí, daquele estado. Durante o encontro, Poliana explicou a dimensão do mercado: “Nós temos uma IG do Café Robusta Amazônico em Rondônia, mas nós iniciamos e sempre trabalhamos em cooperação para a construção desta marca. Hoje nós estamos aqui para difundir este conhecimento e dizer que há espaço e mercado para todos. O estado de Rondônia recebe demanda três vezes maior do que consegue produzir e a ideia é espalhar conhecimento para expandir este produto e conquistar diferentes lugares do mundo”, afirmou.
A programação do Dia de Campo incluiu informações sobre técnicas de plantio de café na região amazônica e sobre a produção de cafés especiais, com visitas e demonstrações práticas em áreas de cultivo, além de uma palestra do Sebrae sobre empreendedorismo e tributos. João Maria Diocleciano, analista da Embrapa Rondônia, apresentou práticas adequadas para a implantação e manejo das diferentes cultivares do Café Robusta Amazônico, além de tecnologias do sistema de produção desenvolvido em Rondônia e que está em fase de experimentação e expansão em outras regiões, incluindo Roraima.
No campo experimental da Embrapa Roraima, segundo ele, já há material suficiente para mostrar potencial produtivo: “É importante que os agricultores indígenas vejam de perto como se trabalha essa cultura do café, uma cultura tão importante para o Brasil e para a região Norte. Aqui, no campo experimental da Embrapa, nós temos mais de cinquenta clones diferentes, com alta produtividade e excelente resistência a doenças. Roraima tem tudo para se transformar em um polo de robustas amazônicos”, afirmou João.
João detalhou ainda a etapa de avaliação dos materiais genéticos: “Esses clones estão em avaliação. Esta será a primeira, mas é necessário que se faça pelo menos quatro avaliações para termos noção exata em termos de produtividade. Precisamos ver também outras questões, como resistência a tombamentos, resistência a pragas e doenças, qualidade de bebida, resistência a nematoides. Há uma série de fatores a serem investigados para serem repassados aos agricultores em breve”, completou.
No dia seguinte ao campo, Poliana ministrou ainda uma palestra sobre cafés especiais e fez demonstração dos cafés de Rondônia em uma cafeteria em Boa Vista.
Construção coletiva e capilaridade no estado
Ana Karoliny Siqueira Calleri, produtora e representante local da comunidade indígena Kawuê, resumiu o impacto da produção na vida das famílias da região: “É importante que todos entendam que a nossa região tem um potencial bastante forte com a agricultura. Hoje nós estamos iniciando os nossos passos na cafeicultura. É um trabalho árduo, mas em conjunto a gente consegue transformar o nosso cenário e transformar vidas e a nossa comunidade através disso. A minha vida foi transformada por meio do café. Hoje eu consigo mostrar um modelo de negócio, de plantação, para introduzir nas comunidades de maneira sustentável, sem agredir o meio ambiente. A gente consegue trazer a nossa cultura para dentro do nosso plantio, trazer os nossos saberes ancestrais dos nossos avós, dos nossos pais, colocar ali dentro e desenvolver as comunidades indígenas. E o Kawuê tem sido um exemplo disso. A gente consegue transformar a nossa comunidade em um exemplo para outras comunidades, tanto no projeto do café quanto no turismo que a gente conseguiu agregar.”, explanou.
Promovido pela unidade da Embrapa no estado, o dia de campo do café contou com o apoio do Sebrae e da Faerr/Senar e a participação de diversas entidades parceiras. Miguel Amador de Moura Neto, chefe-geral da Embrapa Roraima, afirmou que o evento mostra o retorno social da pesquisa e ressaltou o apoio de outros órgãos, com conversas iniciadas em 2013: “A Embrapa tem por objetivo entregar valor para a sociedade e é muito gratificante ver isso em um dia de campo como este. Não posso deixar de recordar que começamos essa conexão mais próxima com o agricultor familiar com o Fórum da Agricultura Familiar. A gente não pode deixar de reconhecer que tudo o que nós fazemos tem apoio dos governos e das instituições locais em geral. A tônica da época era essa: a Embrapa produzindo e juntando-se aos demais órgãos para desenvolver as produções locais”, contou.
Lourenço de Souza Cruz, chefe de transferência de tecnologia da Embrapa em Roraima, complementou que o trabalho tem histórico de diálogo com a base: “Este é um trabalho que começou lá atrás, com os fóruns que reuniam diferentes organizações, apoiadores e interessados. É uma grande satisfação termos um bom número de técnicos do Iater hoje, multiplicadores do conhecimento que dão capilaridade para chegar a todos os municípios e regiões, para transferir conhecimento técnico e fazer chegar até a ponta.”
O engenheiro agrônomo Eliander Pimentel Trajano, coordenador regional do Iater-RR, destacou o avanço da cadeia no estado nos últimos anos: “A gente acredita que essa atividade da cafeicultura no estado é importante para o cenário da agricultura familiar. Eu acompanho o trabalho desde 2019 e posso dizer que avançamos muito. Nos últimos dois anos, quase triplicamos a quantidade de produtores. Hoje temos representantes de regiões como a do Cantar e a nossa equipe tem anseio de aprender um pouco mais. É um aprendizado gigante para nós. No início, chegar muda de qualidade era o maior problema, hoje nós temos uma realidade de fornecedores de muda de qualidade e a Embrapa está aí testando vários clones que estão no mercado.”, disse.
Marizete de Souza Macuxi, coordenadora da Funai em Roraima, endossou o incentivo, reforçando o papel da autonomia financeira das comunidades indígenas: “A comunidade Kawuê mostra esse potencial aqui dentro para fortalecer a sua produção, com a conjuntura de instituições que apoiam. Nós também estamos aqui para somar e dizer que a Funai também está à disposição para buscar e construir este apoio e garantir esta produção dentro das comunidades indígenas.”, declarou.


